Vitória: Esta loucura tem que acabar


Assim começa o discurso que Kay Sara, atriz indígena, iria fazer na abertura do Festival de Teatro de Viena, no dia 16 de maio. Um vídeo com esse discurso, gravado e postado por ela em sua rede social, chegou a mim hoje, 5 de junho, minutos antes de escrever essas linhas. Suas palavras ecoam em minha cabeça, fazem meus olhos se encherem de lágrimas e arrepiam minha espinha.


Há uma semana, tento escrever meu relato em meio a pandemia de Coronavírus em meu país, Brasil, mas não consigo. Dividir minha história, sendo uma mulher branca de classe média, no momento em que negros e indígenas de meu país sofrem não apenas com a crescente transmissão da Covid-19, mas também com as ações genocidas e fascistas do governo brasileiro seria extremamente egoísta. Sinto culpa, vergonha e angústia.


Pensei em ficar calada, não escrever nada. Achei que deveria apenas escutar ao que negros e indígenas estão dizendo. Mas isso não é apenas um problema deles, é meu também. Essas minorias são vítimas de um sistema criado e perpetuado por brancos, que precisa ser desmantelado. Ao mesmo tempo, ficar calada seria escolher o lado do opressor. Seria uma covardia.


João Pedro, de 14 anos, foi morto em 18 de maio depois que policiais entraram atirando na casa em que estava, durante uma operação no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Após ser atingido, João Pedro foi levado de helicóptero pelos policiais, e sua família passou 17 horas procurando-o em hospitais da região até encontrarem seu corpo. A polícia alega que revidou tiros de traficantes, que tentavam fugir pulando o muro da casa onde João Pedro estava, mas testemunhas negam essa versão.


João Pedro se tornou mais uma vítima da polícia brasileira que, segundo dados, matou uma pessoa a cada uma hora e meia em 2019. No estado do Rio de Janeiro, a cada três assassinatos, um foi cometido pela polícia. No país, das pessoas mortas pela polícia, 75% são negros.


No dia 2 de junho, quando as redes sociais foram tomadas pelo #blackouttuesday, o menino Miguel, de 5 anos, acompanhava sua mãe, Mirtes, em mais um dia de trabalho como empregada doméstica. Com a suspensão das aulas na creche devido à pandemia e sem ter com quem deixar o filho, Mirtes o levou para o apartamento dos patrões, localizado em um prédio de luxo em Recife, capital do estado de Pernambuco, no nordeste do país.


Mirtes precisou levar o cachorro dos patrões para passear, deixando Miguel aos cuidados da patroa, Sari Cortes Real (primeira-dama da cidade de Tamandaré, localizada no mesmo estado). Ao perceber a ausência da mãe, o menino quis ir encontra-la, sendo deixado sozinho no elevador do prédio por Sari. O garoto se perdeu no prédio e acabou parando no 9º andar, de onde caiu ao tentar subir em uma grade.


A morte de Miguel causou grande comoção devido ao descaso da patroa (branca) com o menino (negro e filho da empregada). O caso representa mais um exemplo do racismo estrutural existente e da ideia de supremacia branca na sociedade brasileira. Hoje, as redes sociais clamam por #justiçapormiguel.


"O caso representa mais um exemplo do racismo estrutural existente e da ideia de supremacia branca na sociedade brasileira. Hoje, as redes sociais clamam por #justiçapormiguel."

O racismo também dizima há séculos os povos indígenas originários de meu país. Desde a chegada dos europeus, há mais de 500 anos, esses povos estiveram sujeitos a doenças, violência e truculência impostas pelos colonizadores – agora, personificados na forma de um Estado negligente e usurpador.


Com a chegada da Covid-19 ao Brasil, a vulnerabilidade dessas comunidades ficou ainda mais evidente. Dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) mostram que mais de 1800 indígenas de 78 povos já estão infectados com o vírus no país. Até o final de maio, já haviam 178 mortes pela doença. Os dados da organização diferem dos oficiais do governo – que diziam haver 51 mortes no final do mesmo mês.


De acordo com Sonia Guajajara, coordenadora da Apib e líder indígena, a discrepância ocorre porque o governo só contabiliza como indígenas casos e mortes que ocorrem em aldeias e territórios. Indígenas que se encontram em centros urbanos acabam entrando para as estatísticas gerais – o que evidencia uma negação por parte do governo em mostrar a situação real pela qual os povos originários estão passando: risco de extermínio total.


Além do Coronavírus, as comunidades indígenas ainda precisam lutar contra a crescente invasão de seus territórios realizada por garimpeiros, madeireiros e agropecuaristas. O desmatamento da floresta Amazônia aumentou no mês de março, mesmo com a pandemia já em curso no país.


O pior de tudo é saber que esse desmatamento ocorre com respaldo do governo. O ministro do meio ambiente sugeriu, em vídeo divulgado na imprensa, que a distração do país com a pandemia seria o momento ideal para flexibilizar as leis de proteção ambiental. “E o que o presidente tem feito? O que ele sempre faz: apertar na mão de seus apoiadores e zombar dos mortos”, afirma Kay Sara em seu discurso. Eu concordo completamente.


Diante de tudo o que acontece em meu país, o momento tem me deixado mais ciente dos meus privilégios; de quanto tudo que vivi ou conquistei só foi possível por causa da estrutura racista da sociedade, da qual me beneficio enquanto mulher branca; e do quanto sou corresponsável por essa estrutura. Tem sido um momento para ler, estudar, entender e, acima de tudo, ficar em silêncio. Mas não um silêncio imobilizado pelo medo, e sim de quem tem muito a aprender. “Chegou a hora de ouvir”, Kay Sara me diz.


Ela continua: “Vocês precisam de nós, os prisioneiros do seu mundo, para poderem entender a si mesmos. Porque a coisa é tão simples: não há ganho nesse mundo, há apenas vida.”.


Suas últimas palavras me dão esperança: “Vamos resistir juntos. Vamos ser humanos, cada um a sua maneira e lugar. Unidos pelas nossas diferenças e pelo amor, pela vida que une a todos.”



Imagem: Vidas Indígenas importam


Esta historia ha sido originalmente escrita en portugués. Próximamente en español.


Esta historia fue compartida por Manuella, una arquitecta y urbanista de Vitória, Brasil.

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